Carvoarias estão destruindo as matas do Pantanal

Fonte: Ambiente Já

Publicado em 30/01/2012
*Por Najar Tubino 
 
A indústria da morte. É a imagem mais apropriada para retratar uma carvoaria. Neste momento funcionam 200 carvoarias dentro do Pantanal, apenas na parte sul.

A maior província alagada do mundo, começou a ser consumida nos últimos três anos. A região leste do Mato Grosso do Sul – em torno de Ribas do Rio Pardo, um dos municípios mais pobres do estado – ex-capital do carvão -- encerrou a sua cota de cerrado nativo. Simples, acabou o mato. As carvoarias começaram a se mudar para a região de Bonito, incluindo o município de Jardim, onde fica a nascente do rio da Prata, um dos mais belos cartões postais da região. No MS são mais de cinco mil. Uma indústria que emprega crianças, trabalhadores irregulares, de outras cidades e estados. Volta e meia são escravizados. Uma cadeia produtiva exemplar, ao contrário, é lógico.

Uma das mais vergonhosas histórias desse Brasil iniciada na época da colônia, como narrou em seu livro “A Ferro e a Fogo”, o americano Warren Dean. Minas Gerais, destino final do carvão, para produção de ferro gusa, nas siderúrgicas um dos componentes do aço, começou a queimar a mata atlântica em 1740, quando os escravos colocavam a madeira em “covas”, poços cobertos por capim. Cada 100 toneladas de madeira, resultavam em 6 toneladas de carvão. E com 7 toneladas de lenha se obtinha uma tonelada de ferro gusa.

No auge, em 1860, as forjas exigiam desmate de 40 km2 por ano. Foram mais de 2 mil km2 que viraram carvão da época da Independência até a República. Em 60 anos, anotou Warren Dean, acabaram com a mata da região de Belo Horizonte e cercanias, como Sete Lagoas, onde se concentram as gusarias. Minas Gerais produz atualmente mais de 7 milhões de toneladas de ferro gusa o que exige uma área de mata em torno de 1 milhão de hectares. A cada tonelada de ferro gusa correspondem 150 mil hectares de mato.

Boi e Carvão

A situação da pecuária no MS, estado com 25 milhões de cabeças de gado, envolvido por sucessivos focos de febre aftosa – restringindo o mercado, paralisando a exportação – favoreceu as carvoarias. Os fazendeiros do Pantanal conseguem licenças para desmatar uma área, entregam as carvoarias, ficando com 5 a 10% do negócio. Alguns entregam só para ter a área limpa, disponível ao plantio de capim. Na parte sul do Pantanal, principalmente na região de Corumbá, pastam mais de 2 milhões de cabeças.

Uma pecuária pobre, normalmente de cria, para produção de bezerros (terneiros), que antigamente eram levados em tropeadas até a região de Presidente Prudente, no oeste paulista. Na situação atual os fazendeiros precisam fazer o ciclo completo, produzindo boi gordo, e aí somente com pastagem cultivada, ou agricultura, no caso de produção de silagem, mistura de grãos e forragem. Recentemente o Globo Repórter mostrou a região e um dos empregados de uma carvoaria, lamentando o fato das árvores nativas se transformarem em carvão disse: "O Pantanal vai virar carvão, não tem outro jeito".

Uma tonelada de carvão em 2005 custava R$ 45,00. Não aumentou muito mais que isso, porque a oferta é muito grande. Ela também funciona na Amazônia, no sul da Bahia, onde ainda existem pedaços intactos de mata atlântica. É comum ver os caminhões carregados de sacos de carvão, trafegando por estradas secundárias.

No Mato Grosso funciona um mercado que vende carvão de mato nativo, com notas de carvão de área reflorestada ou plantada. Fato também denunciado numa programa da Rede Record recentemente. O problema do Brasil é histórico. O país que detém 22% das plantas do mundo, sempre viveu de costas para a floresta. Ainda hoje os jornalistas de televisão divulgam a imagem “da selva”, como algo inóspito, terrível, justamente a mesma imagem usada pelos europeus no século XVII ou XVIII.

Não é à toa que o Brasil já é o quarto emissor de gás carbônico (CO2), em conseqüência dos desmatamentos no centro-oeste e norte do país. Nos primeiros 20 dias de agosto de 2007 foram mais de 12 mil focos de incêndios, ou focos de calor, como dizem os técnicos.

Focos de Incêndio

A maioria nos estados do Mato Grosso e Pará, logicamente, onde se concentra o avanço da fronteira agrícola. Podem ter certeza: sempre que o preço da terra valoriza, caso da soja em 2002, com pico de preço, o mercado da terra é invadido por empresários de todas as áreas. E os números de focos e a área de desmatamento aumentam. A preferência pelo fogo é simples: ao invés de esperar uma licença ambiental, tocam fogo logo. Consuma a situação, ou, a própria terra não tem documentação, ou é publica e está invadida.

Além disso, normalmente depois de derrubar as árvores com o correntão (tratores que botam abaixo a mata puxando uma corrente pesada), a área é incendiada. Depois sobram os troncos, pedaços de troncos. Aquilo ainda vai queimar dois, três anos. Alguns fazendeiros não queimam, mas é uma exceção. Também queimam montanhas de pó de madeira que sobram nas serrarias.

Em 1998, percorremos uns 2 mil quilômetros no Mato Grosso, de Cuiabá a Alta Floresta, no início do mês de setembro – a seca vai de junho a outubro. Setembro é o auge. A fumaça no interior se mistura ao pó das estradas. Não tem umidade, ela é menor do que 20%. Àquela mistura fica concentrada perto da superfície. E se estende por quilômetros. O ar com fumaça toma conta de toda a região. Mesmo no hotel, à noite, com ar condicionado, se respira o cheiro da fumaça.

O físico Paulo Artaxo integra uma equipe de cientistas que analisou a formação de nuvens na floresta amazônica no projeto chamado Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). A floresta produz metade da chuva, dos quase 3 mil milímetros anuais. Eles analisaram as partículas (aerossóis), fundamentais na formação das gotas de chuva. Na época de queimadas elas saltam de 300 partículas por centímetro cúbico para mais de 15 mil partículas. As gotas diminuem de tamanho e acabam não caindo na região.

Isso sem contar os minerais que contêm essas partículas, como o fósforo que deveria cair na mata. Ou o ozônio (O3), que na alta atmosfera rebate os raios ultravioletas, mas na baixa atmosfera causa doenças e reduz o crescimento das plantas. O ar poluído na época das queimadas no norte é pior do que o ar da capital paulista nos mais difíceis dias de inversão térmica.

O Pantanal tem uma área de 145 mil km2, é a maior planície fluvial do mundo, com suas l750 espécies de plantas com flores, 145 gramíneas, 262 espécies de peixes, 650 espécies de aves, 80 mamíferos, 50 répteis, 1200 tipos de borboletas, entre outras milhares de espécies. Movimenta cerca de 1 milhão de turistas anualmente. Turistas, que cada vez mais, dividirão as imagens idílicas, paradisíacas, com o negrume das carvoarias.

* Najar Tubino é jornalista e autor da palestra "Uma visão Holística e atual sobre a integração do planeta", na qual aborda questões como mudanças climáticas, aquecimento global, extinção de espécies, o funcionamento dos sistemas que compõem e movimentam a vida na Terra, numa visão abrangente sobre a integração no planeta entre atmosfera, oceanos, montanhas, organismos vivos.