Entrevista com Sônia Hess sobre as termelétricas e o gás natural boliviano

Publicado em 18/11/2003 As termelétricas a gás natural e a presença de mercúrio no gás boliviano são dois assuntos que há algum tempo vêm gerando polêmica no estado de Mato Grosso do Sul. Desde 2001 os professores e pesquisadores Bruno Mangepelo, Carlos Roberto de Lima e Sônia Corina Hess, vêm pesquisando sobre os efeitos da poluição dos gases emitidos pelas termelétricas na população e no meio ambiente.

Na audiência pública realizada em Três Lagoas, onde deve  entrar em funcionamento outra termelétrica, a professora Sônia Hess foi chamada de terrorista e desonesta pelo presidente da MS Gás, Luís Landes, como foi publicado no Campo Grande News, por apresentar dados embasados na literatura científica. Para entender melhor o que a professora Sônia Hess está dizendo fizemos uma entrevista onde ela conta como foi seu envolvimento com as termelétricas e o que ela espera que seja feito para que a população seja protegida.

Na entrevista Sônia também conta o que descobriu sobre o óxido nítrico, responsável pela chuva ácida, depois de ler 2 mil artigos sobre o assunto. Além dos prejuízos na saúde da população e no meio ambiente a professora ainda lembra da questão econômica. O prejuízo que a chuva ácida traz para agricultura, só que ninguém percebe.

A professora Sonia Hess é engenheira química com pós-doutorado em Química pela Universita Cattolica Del Sacro Cuore Instituto Di Chimica e Chimica Clinica (UCSC) na área de Química dos Produtos Naturais, Itália; pós-doutorado em Química pelo Departamento de Química Orgânica da Universidade de Campinas (Unicamp) na área de síntese orgânica e professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
  
1 - Quando iniciou seu envolvimento com a questão das termelétricas do MS?
Sônia -
Tudo começou quando a Dr Marigô, Promotora Estadual de Meio Ambiente de Campo Grande, me convidou para uma reunião na promotoria, em outubro de 2001, com os representantes da Tractebel, empresa responsável pela usina Willian Arjona. Os dados apresentados naquela reunião me deixaram extremamente preocupada. Eu não estava participando de nada disso antes. Foi então que eu comecei a participar das discussões, ao mesmo tempo em que o professor Bruno Mangepelo, e o professor Carlos Roberto de Lima estavam  juntos nesta história desde do começo.

2 - O que foi feito após a reunião?
Sônia -
A partir dos dados e documentos que a própria empresa apresentou para a Dr Marigô, nós iniciamos intensivos estudos sobre o assunto. Por outras vias eu já sabia que óxido nítrico1(NO) tinha efeitos fisiológicos muito importantes e as concentrações para que esses efeitos aconteçam são baixas. Com base nisso, comecei a fazer uma pesquisa na literatura, e realmente encontrei dados que comprovam que o óxido nítrico causa uma série de problemas para saúde, apesar dele também ser usado como medicamento (em hospitais, sob rigoroso controle médico!!!). Durante todo o ano de 2002 nós estudamos tudo o que havia de relatos sobre o óxido nítrico, que é precursor do ácido nítrico. Essa termelétrica de Campo Grande, Willian Arjona, quando está funcionando apenas uma turbina, 24 horas por dia, libera 4 toneladas de óxido nítrico. Em um mês serão 252 toneladas de ácido nítrico na atmosfera que volta para terra como chuva ácida, já que este gás gera ácido nítrico na atmosfera..
 
3 - Por que a usina Willian Arjona polui tanto?
Sônia -
A usina de Campo Grande polui muito porque é um equipamento antigo. Era usado em El Salvador, já tinha quase 20 anos de uso, ou seja, tecnologia zero. Já em Três Lagoas a usina emitiria bem menos óxido nítrico porque é uma tecnologia melhor. Para ter-se uma idéia, para gerar 240 mW de energia a Usina de Três Lagoas lançaria menos óxido nítrico do que  a termelétrica William Arjona produz em uma turbina, para gerar 40 mW (seis vezes menos energia com mais poluição!!!). E a de Corumbá eu não sei, porque não analisei o EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental;Relatório de Impacto no Meio Ambiente) do atual projeto. De qualquer maneira, toda usina termelétrica libera quantidades bem significativas de óxido nítrico. Se todos os empreendimentos que estão previstos forem implantados em MS, com certeza nós poderemos ter uma grande quantidade de ácido nítrico sendo produzido na atmosfera. Este ácido volta ao solo na forma de chuva ácida e tem interferência direta nos ecossistemas e, inclusive, na produtividade agrícola. A poluição tem efeitos diretos sobre a economia, só que as pessoas não percebem.

4 - Como surgiu a questão do mercúrio2 no gás natural boliviano?
Sônia -
Fizemos uma pesquisa muito grande na literatura e os professores Carlos Lima e o Bruno Mangeapelo, foram os primeiros a levantar a questão da contaminação por mercúrio no gás natural. Em vários países do mundo que usam gás natural existem casos de contaminação por mercúrio, arsênio, chumbo e até materiais radioativos como radônio. Isso foi visto em muitos países e já existem alguns movimentos para tirar o gás natural das casas, porque as pessoas estão sendo contaminadas.

Com base nesses dados da literatura nós pedimos a Dr Marigô que solicitasse à empresa um laudo quanto à presença de mercúrio no gás natural e, realmente, o laudo comprovou a presença do mercúrio. Depois disso, a Dr Marigô não conseguiu levar o processo até o ponto que nós gostaríamos, principalmente, porque não existe legislação relativa ao padrão de emissão para termelétricas no Brasil. A legislação não restringe nem óxido nítrico e nem mercúrio. Devido a essa lacuna na legislação ela não pôde avançar muito, em termos jurídicos. Ela assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que foi muito pouco diante do que nós gostaríamos, porque não havia argumentos legais para exigir mais da empresa.

5 - Quais foram os procedimentos tomados após a confirmação do laudo?
Sônia -
Com esses dados nós encaminhamos a denúncia para várias entidades como a OAB (Organização dos Advogados do Brasil) em MS, o Conselho Estadual de Saúde, o Conselho Municipal de Meio Ambiente. O Conselho Estadual de Saúde acatou nossa denúncia e realizou uma reunião no dia 13 de dezembro, com os representantes da Tractebel. No final da reunião os conselheiros entenderam que o assunto era grave. Eles deliberaram que deveria ser feito um estudo epidemiológico em toda área de influência da usina Willian Arjona, para verificar se a saúde das pessoas estaria sendo afetada, inclusive a saúde dos trabalhadores da usina. E também deliberaram que deveria ser feita uma audiência pública, que ainda não foi realizada. O Conselho Estadual de Apoio a Mulher de MS, pediu que eu encaminhasse a documentação referente a essas denúncias.

6 - Algum EIA/RIMA mostrou a presença de mercúrio no gás boliviano?
Sônia -
Nenhum EIA/RIMA fala da presença de mercúrio no gás natural, nem mesmo do gasoduto Bolívia - Brasil. Isso é muito grave, porque o mercúrio está presente no gás. O EIA /RIMA deveria mencionar, tanto que a Petrobrás, reforçou, que ela limitou a concentração em 0,6 microgramas de mercúrio por metro cúbico do gás. Ela limitou somente no contrato, mas não falou nada disso no EIA/RIMA. Como existem estudos ao redor do mundo que demonstram que isto realmente representa um risco à saúde da população, a presença do mercúrio no gás, teria que constar do EIA/RIMA do gasoduto, bem como quais seriam as medidas a serem tomadas para evitar que fossem lançados no ambiente este elemento, bem como outras substâncias tóxicas (chumbo, arsênio, radônio, etc) possivelmente presentes no combustível.
Por isso nós estamos combatendo a operação das usinas, porque se o EIA/RIMA é falho, omite uma informação importante como essa, não pode deixar funcionar enquanto não tomar as medidas de prevenção, para evitar que problemas de saúde passem a afetar população.  

7 - Como estão sendo as respostas das denúncias que foram feitas sobre a contaminação do gás?
Sônia -
Eu já recebi correspondência do Ibama, da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), da Fundação Nacional de Saúde, todas essas entidades já estão encaminhando ao MMA (Ministério do Meio Ambiente) e ao CONAMA, pedidos para que providências sejam tomadas. O que nós esperamos é que alguém nos ouça, nos leve a sério. E que o MMA assuma seu papel e regulamente as emissões gasosas em termelétricas, principalmente contra óxidos de nitrogênio e mercúrio. Isso é gravíssimo, tem laudo, tem tudo pronto, literatura científica o que resta agora é lei. Tem que ter lei, porque a comunidade tem que ser protegida.  
O que eu gostaria de deixar claro é que nós somos sérios e não temos nada a ver com a política. Nós não somos contra pessoa alguma. Nenhum político é nosso inimigo. Nada disso, só queremos deixar claro que existe um risco e a população deve ser protegida.

8 - Qual a sua opinião em utilizar o gás boliviano nos condomínios?
Sônia -
Eles irão utilizar o gás no Hospital Universitário, eu já encaminhei um documento para o reitor demonstrando minha preocupação com isso e pedindo providências.  Porque se no mundo inteiro, onde se usa o gás natural, há problemas de contaminação com metais pesados, nos estamos indo de trás pra frente. Se os outros já viram que é problema, nós temos que tomar providências para que não aconteça aqui. Ou vamos esperar 20 anos esses metais sendo lançados no ambiente, as pessoas sendo contaminadas, e só então fazer algo? Isso não tem sentido. Providências têm que ser tomadas logo.

9 - Há necessidades de se utilizar termelétricas a gás natural?
Sônia -
É errado usar termelétrica a gás para gerar energia elétrica. Isso é um erro! Não precisamos de termelétrica a gás natural. Nós podemos ter Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e, também, termelétricas empregando combustíveis baratos, renováveis e abundantes em Mato Grosso do Sul, como  bagaço de cana, restos de madeira, cascas de vegetais como arroz e milho, etc. Temos a biomassa e o álcool, não precisamos do gás natural para produzir energia elétrica. Mas para veículos e algumas indústrias seria bom, já que substituiria combustíveis mais poluentes. Isto é, claro, desde que os devidos cuidados sejam tomados para que o gás seja purificado, retirando-se os metais pesados que o estão contaminando.

- Sônia também faz restrições quanto a utilização do gás boliviano
Eu tenho várias criticas sobre essa questão de usar o gás boliviano para implantar atividades econômicas de relevância no Brasil. Nós acabamos de ver uma revolução na Bolívia, quem nos garante que daqui um tempo eles não podem fechar simplesmente essa saída de gás e todos os empreendimentos que estão no Brasil vão ser prejudicados?

Segundo ponto é o preço do gás natural. O gás é importado com preço em dólar. O preço do mercado internacional está 1.80 dólar o BTU e o Brasil está pagando 3.80 dólares por BTU. Isto, porque o contrato permite!!! O Brasil está sendo obrigado a comprar 30 milhões de metros cúbicos de gás por dia, pagar por isso mesmo sem usar, e ainda pagar os preços que as multinacionais donas do gás boliviano ditam. Que contrato é esse?

Terceiro ponto é: por que um pólo gás-químico em Corumbá? Corumbá tem que ser protegida. Tem que se perceber que Corumbá pode ter um turismo que poucos lugares do mundo tem. Tem uma história maravilhosa. Todo o povo brasileiro deveria conhecer essa história, a luta que foi para ficar com esta linda parte do nosso território. Por que Corumbá não faz um grande programa de turismo histórico, por exemplo? É preciso desenvolver aquela cidade com coisas boas. Se começarem a implantar lá indústrias poluidoras, ninguém vai querer ir para Corumbá para fazer turismo. O que atrai em Corumbá é a beleza e a sua história. Não precisamos de indústrias pesadas lá.

1. Óxido Nítrico - é usado como medicamento em hospitais com controle rigoroso. Há um artigo científico que diz que se o controle não for rigoroso, o paciente que for tratado com óxido nítrico para, por exemplo, tratar de problemas cardíacos, poderá adoecer por câncer de pulmão. O óxido nítrico interfere em diversos processos, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e, inclusive, em processos que levam à impotência masculina.

2. Mercúrio - o mercúrio tem dois tipos principais de ação nociva ao organismo humano. Existem os efeitos nefrotóxicos, que atingem os rins, e os efeitos neurotróxicos, que afetam o sistema nervoso central. Além desses danos, o mercúrio provoca efeitos mutagênicos (alterações do DNA), perda de memória, deficiências nos órgãos sensoriais e alterações no metabolismo, o que o torna a substância mais tóxica para o homem e grandes animais. Na cavidade oral, o mercúrio causa gengivite, estomatite e salivação aumentada. Também causa danos ao sistema respiratório. Uma grande quantidade de dicloreto de mercúrio, que corresponde a volumes mínimos de 0,3 a 0,4, é o suficiente para matar um homem adulto. (Fonte: Revista Electra - Março de 2003)

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