O espírito do Surf vibra e sofre no Pan Americano Surfing Games Ilhéus

Fonte: Por Rui Rocha

Publicado em 20/10/2009 1976. Eu completava dez anos de  idade, e ganhei uma prancha de  isopor do meu pai. Foi  rápido – observando as  imagens de surf na  televisão, e mesmo  dos  primeiros  surfistas  em  Morro  de  São  Paulo,  aprendi  a  ficar  em  pé  na pranchinha, do meu tamanho. Com o tempo, fui convivendo tão profundamente com a natureza da costa baiana e brasileira que o surf e a beleza desta costa se  revelam hoje para mim, e creio, para  tantos surfistas, como duas  faces do mesmo  santuário.  Anos  depois,  comecei  a  participar  de  campeonatos  em Valença, pequenas competições na praia do Guaibim. A disputa pelo primeiro lugar  movia  o  coração  de  muitos  surfistas,  mas  a  paz  daquele  esporte continuaria presente no meu coração, mesmo que o cenário  fosse  tomado de públicos estranhos, patrocínios e interesses diversos ao esporte.

Novamente  assisto  a  cena  -  Ilhéus, município  localizado no sul da Bahia, será cenário do Pan American Surfing Games, que  reunirá, de 7 a 14 de novembro, na Praia de Batuba, em Olivença, competidores de 20 países do continente. A comunicação oficial do evento tem uma estratégia imbutida – promover  a  imagem  de  empresas  e  entidades  patrocinadoras,  algo absolutamente natural em eventos deste tipo. A diferença deste campeonato é que  uma  das  empresas  patrocinadoras  é  a BAMIN,  uma  empresa  de  capital indiano e do Casaquistão  (até onde se sabe) que  tem  foco na exportação de minério de ferro de Caetité -   além do altíssimo  impacto possível na região da jazida, o negócio se complica porque a idéia da empresa, junto com o governo da Bahia, é de escoar o produto pelas praias  limpas da Praia do Norte, mais precisamente a Ponta da Tulha.  Importante balneário do povo grapiúna, esta costa  ficou  famosa  em  todo  o mundo  pela  altíssima  biodiversidade  de  suas florestas.   Milhares de pessoas  trabalham hoje nesta  região com o  turismo, a pesca e a agricultura familiar, a maioria produtores orgânicos. Escolas como o Dendê da Serra e Rosa dos Ventos, ao  lado do Parque do Conduru,  formam crianças  junto com  a  natureza  preservada,  ensinando-as  o  valor  do  meio ambiente desde as primeiras letras.  

A propaganda do evento  continua  :  serão mais de 300  surfistas  classificados em  seus  países  de  origem  através  de  competições  qualificatórias  que disputarão, em  Ilhéus, o  título de “melhor da América” em várias categorias. A BAMIN,  pegando  carona  no  surf,  quer nos  vender  a  idéia de  que  a  empresa está  associada  a  um  esporte  movido física  e  espiritualmente pela  natureza, desde os primórdios, na polinésia.  

Vale a pena dizer para os surfistas  locais e americanos de  tantos países que virão para este evento aquilo que a empresa faz questão de omitir – Em busca do lucro da mineração, a empresa poderá comprometer uma área de proteção ambiental  – a Lagoa Encantada, e muitos quilômetros de  praias  poderão  ser poluídos com o pó de ferro, além dos impactos da zona portuária em um local atualmente  muito  preservado.  Baleias,  tartarugas,  golfinhos,  corais  e  uma infinidade de peixes estão já sentindo uma presença estranha nesta costa, com as  investidas  da Bamin  sobre  os  oceanos,  em  pesquisas  do  fundo,  tentando mostrar  a  viabilidade  técnica  de  um mal  negócio  para  Ilhéus  –  transformar  a maravilhosa costa do norte em um pátio de minérios.  

Para  beneficiar  a  quem?  Os  surfistas  de  toda  a  região  estarão  curiosos, durante o campeonato, para saber quem são os melhores surfistas da América.

Nós, do outro  lado da mídia, sabemos que o evento  tem um outro propósito – melhorar  a  imagem  de  uma  empresa  que  quer  destruir  o  encanto  do  nosso litoral em  fração de meses, movidos pelo dinheiro do  ferro,  litoral que  foi  feito com muito carinho ao longo de milhões de anos.  Fica a pergunta no meio das ondas de Batuba, em Olivença  - a Bamin deve mesmo  explorar  o  ferro  de Caetité, mesmo  causando  tanto  impacto  para  os moradores  daquela  região? A  sua  logística  faz  sentido pela APA  da  Lagoa Encantada,  destruindo  uma  das mais  belas  paisagens  do  litoral  americano?

Enquanto esperarem as ondas, no out side, os atletas ficarão se perguntando o que eles e elas têm a ver com tudo isso. E é óbvio que tem!

Rui  Rocha,  ambientalista  desde  1990,  é  empreendedor  Ashoka  e  atua  no Instituto  Floresta  Viva,  no  Sul  da  Bahia.  Natural  de  Valença,  vive  em  Ilhéus desde 1996. Membro do Conselho de Meio Ambiente de  Ilhéus, cidade onde vive  com  a  sua  familia,  tem criticado   desde  janeiro  de  2008  o  projeto  da BAMIN no Sul da Bahia,  junto com ativistas e profissionais de  todo o Brasil. É um dos membros da Rede Sul da Bahia Justa e Sustentável.