O fenômeno da decoada

Fonte: Emprapa Pantanal

Publicado em 04/02/2011

A decoada está diretamente relacionada ao regime de cheia e seca dos rios da planície pantaneira. Quando as águas recuam, a vegetação aquática morre e a terrestre, em especial gramíneas, se recompõe de forma rápida.

Durante a enchente subseqüente, segundo Débora Calheiros, pesquisadora da Embrapa Pantanal, a água passa a cobrir a planície pantaneira deixando esta vegetação submersa. Toda essa matéria orgânica em contato com a água começa a se decompor e, conforme o nível de inundação aumenta, os produtos da decomposição são levados do campo inundado para os lagos (baías), córregos e rios.

Esse processo de decomposição realizado pelas bactérias é tão intenso que é capaz de consumir todo o oxigênio dissolvido na água, liberando o dióxido de carbono livre. O fenômeno dificulta a respiração dos peixes, que sobem à superfície para tentar absorver o oxigênio da interface ar-água (“boquear”) e ficam mais expostos aos predadores ou acabam morrendo se não acharem uma área com água em melhores condições.

Segundo a pesquisadora da Embrapa Pantanal (Corumbá-MS), Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, dependendo da intensidade e tempo de duração, o fenômeno pode matar toneladas de peixes.

Apesar disso, Débora explica que a decoada tem um papel ecologicamente importante para o funcionamento do Pantanal. Faz parte do ciclo de renovação da planície relacionado ao ciclo das águas e garante a entrada de nutrientes no sistema. Normalmente a decoada acontece no período de enchente, entre fevereiro e maio. Nesta época as altas temperaturas (média de 32 graus) no Pantanal aceleram o processo de decomposição.

Quando uma frente fria se aproxima, as temperaturas caem por alguns dias e o processo de decomposição desacelera, melhorando a qualidade da água.  Em 1995, o rio Paraguai chegou a ficar dois meses praticamente sem oxigênio em função da decoada.

É difícil prever exatamente onde a decoada vai ocorrer, mas Débora afirma que o fenômeno tende a acontecer a partir do Parque Nacional, na divisa com o Mato Grosso, na região conhecida como Três Bocas. Normalmente atinge as áreas marginais, campos inundados e baías, em caso de cheias mais localizadas, mas pode atingir o canal principal dos rios, se a inundação for intensa.