Observação de onças-pintadas no Pantanal espanta os animais

Fonte: Época, em 24 de novembro de 2012

Publicado em 26/11/2012
Turistas e suas câmeras fotográficas observam a margem do rio. Foto: Lawrence Wahba
Turistas e suas câmeras fotográficas observam a margem do rio. Foto: Lawrence Wahba
Uma onça sorrateira espreita uma capivara, que desliza pelas águas de um rio. O olhar fixo e o corpo tensionado do felino revelam que o ataque é iminente. O momento do clímax é interrompido por uma saraivada de flashes fotográficos. Na margem oposta do rio, 52 turistas observam a cena de uma praia, onde 13 barcos de alumínio estão ancorados. A capivara escapa, e a onça, com a caça frustrada, nada em direção à praia lotada. Uma onda de pânico se instala entre os espectadores, que debandam para as voadeiras, sem dar atenção à tentativa dos guias e piloteiros de organizar a situação. Como numa cena de desenho animado, a praia se esvazia em segundos.
 
A onça chega à margem e anda calmamente, sob novos flashes, até sumir na mata. A menos de 20 metros dali, um homem com um rolo de papel higiênico nas mãos surge da mesma mata e se espanta com a praia vazia – e os 13 barcos já no meio do rio.
 
A cena é cômica, mas poderia se transformar em tragédia. Embora a onça-pintada – o maior felino das Américas – não tenha o hábito de atacar seres humanos, é impossível afirmar que não fizesse isso logo depois de perder uma presa e deparar com uma pessoa de cócoras.
 
O episódio aconteceu em 16 de setembro de 2011, no Corixo Negro, no Parque Estadual Encontro das Águas, Pantanal de Mato Grosso. Desde então, visitei mais sete vezes essa região (a última foi no final de outubro). O melhor lugar do mundo para observar onças-pintadas não vem sendo bem tratado. A falta de banheiros não é o único problema do parque, criado em 2004. Até hoje, a área não tem plano de manejo e, portanto, não há regulamentação para o turismo. Ela deveria estar fechada para visitação. Mas turistas, guias, cientistas e aventureiros frequentam o local, pondo em risco vidas humanas e os felinos em situação de estresse. A falta de regulamentação pode mudar os hábitos das onças – e pôr a perder uma excelente oportunidade de explorar de forma positiva o turismo. “A empresa responsável pelo plano de manejo não o entregou e está sendo acionada judicialmente”, afirma Vicente Falcão, secretário de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso. “Uma nova licitação está sendo preparada.” Ele também afirma que “os turistas com suas câmeras podem fiscalizar áreas quando não estamos presentes.”
 
Nenhum outro local oferece maior probabilidade de ver uma onça-pintada livre na natureza do que essa região pantaneira. Ali vive um grande número de onças-pintadas, atraídas por capivaras e jacarés, suas presas favoritas. Acostumadas aos barcos pesqueiros, as onças os encaram como parte de seu habitat e não estranham o vaivém das embarcações de turistas.

Essa região pantaneira recebe excursões turísticas para observar onças desde meados dos anos 2000, quando o americano Charles Munn começou a divulgar o destino mundialmente. De lá para cá, a região desenvolveu uma pequena economia local, sustentada pelo turismo de observação. Jamil Rodrigues da Costa, dono do Hotel Porto Jofre, o único da região, diz que hoje o turismo de observação traz mais dinheiro que a pesca. O guia Ailton Lara montou um acampamento com barracas no estilo africano, montadas em piso rígido sobre palafitas, com camas e banheiro privativo.
 
A onça, até então considerada uma vilã, era morta por trazer prejuízo ao predar o gado. Mas passou a ser sinônimo de lucro e emprego. A possibilidade de fazer algum dinheiro atraiu guias independentes, barcos e hotéis particulares, que passaram a explorar a região e o interior do parque. Isso seria bom, não fosse a desordem. Sem regulamentação, fica difícil distinguir operadores sérios e guias experientes de oportunistas irresponsáveis. É comum encontrar dentro do parque barcos conduzidos por piloteiros não habilitados, sem itens básicos de segurança, como coletes salva-vidas, âncoras e rádios.

A movimentação de turistas começa a mudar o cenário paradisíaco. Classificadas como “quase ameaçadas” pela União Internacional pela Preservação da Natureza, as onças são animais ariscos. Sua tolerância à presença humana nessa região é uma exceção. Se pressionadas, elas podem passar a evitar a área devido ao contato com os turistas. Alguns dos guias mais experientes da região afirmam que, em 2012, houve menos encontros longos com as onças do que nos últimos anos e que elas estão mais incomodadas com os barcos.
 
Ruanda é o melhor exemplo de como o turismo de observação de animais pode beneficiar a economia de uma região. Devastada pela guerra civil nos anos 1990, a pequena república africana vive hoje do turismo. Em 2010, ele rendeu US$ 200 milhões. A grande atração é a observação de gorilas. Cada turista paga cerca de R$ 1.500 por dia só para caminhar com os animais. Sem contar gastos com transporte, alimentação e estadia. As empresas que faturam com os gorilas investem parte do lucro nas comunidades locais, gerando empregos diretos e qualificando a mão de obra.
 
Mesmo com projeções mais modestas, o potencial econômico faz do Parque Estadual Encontro das Águas um diamante bruto. Uma resolução do Conselho de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso, de agosto de 2011, fez um esforço para regulamentar o turismo de observação das onças no Estado. Mas ela não define regras básicas como quem está habilitado a conduzir os turistas, quais os pré-requisitos para qualificação desses profissionais e das empresas e que tipo de contrapartida devem dar ao Estado.
 
Vi uma situação que revela bem o que acontece no parque. Estava numa praia observando um casal de onças, quando chegaram barcos com turistas, que logo desceram na praia. Logo depois, chegaram dois barcos com pesquisadores estrangeiros, que insultaram a todos em inglês. No meio da troca de insultos bilíngues entre turistas, guias e renomados pesquisadores internacionais, minha equipe e eu éramos os únicos com autorização oficial para estar ali. A onça sumiu na mata. As onças do Parque Encontro das Águas oferecem uma chance única de conciliar preservação, pesquisa científica e geração de recursos. Para isso, é preciso colocar ordem.
 
* Lawrence Wahba é documentarista. Sua série Brasil secreto, sobre o Pantanal, estreia no dia 24 de novembro, às 22h30, no canal NatGeo
LAWRENCE WAHBA