Pantanal, represas e o caso de Shennongjia na China.

Fonte: Artigo de Alcides Faria, Diretor Executivo da Ecoa

Publicado em 16/09/2011
Foto: The Guardian
Foto: The Guardian
No último dia 15 de setembro o jornal inglês The Guardian* publicou artigo de seu correspondente para meio ambiente na Ásia, Jonathan Watts, sobre os impactos sociais e econômicos resultantes da construção de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) na região da reserva natural de Shennongjia, na província chinesa de Hubei.  Watts informa que o processo descontrolado de expansão de uso da água bloqueia rios, cobre as montanhas com tubos e, em razão disso, os moradores perdem seus meios de subsistência.
A realidade de Shennongjia pode ter um correspondente no Brasil futuramente: a parte alta da bacia do rio Paraguai, região onde está localizado o Pantanal, a maior área úmida do planeta. Ali está projetada a construção de 87 empreendimentos hidroenergéticos de pequeno, médio e grande porte, além dos 29 que já estão em operação.
Cientistas têm alertado para os efeitos ambientais, econômicos e sociais para o caso de o cenário de construção de todas elas prevalecer. O principal dano será sobre a pesca, pois as espécies mais procuradas – o dourado e pacú, por exemplo - estão dentre aquelas que migram em direção às nascentes  para a reprodução, processo que é interrompido quando ocorre barramento. Vale o registro que a pesca, nas suas distintas modalidades, o que inclui a turística, é a atividade que mais gera trabalho e renda no Pantanal, sendo o meio de sobrevivência das populações mais vulneráveis.  
Já existem casos evidenciados de problemas ambientais e sociais graves causados pelas PCHs, como é o caso no rio Correntes, onde a represa Ponte da Pedra (174 megawatts) foi construída há sete anos trazendo pobreza para ribeirinhos e dificuldades para pequenos empresários ligados à pesca na região.
O Ministério Público Federal, através do Dr. Wilson Rocha Assis, procurador no estado de Mato Grosso do Sul, coincide com pesquisadores sobre a necessidade de suspensão dos licenciamentos até a realização de uma Avaliação Ambiental Estratégica de toda a Alta Bacia do Paraguai, pois tal iniciativa permitiria que os impactos cumulativos das represas fossem devidamente dimensionados e também se elaborar  um plano sobre as alternativas mais apropriadas.  
Voltando à matéria do Guardian, é interessante registrar que existem outras coincidências entre os dois casos como o fato de que  Shennongjia e parte do Pantanal   são reconhecidos pelas Nações Unidas como Reserva da Biosfera Mundial. O Guardian conta que na cultura popular a região chinesa é tida como a “casa impenetrável do mítico ‘homem Shennongjia selvagem’". 
*http://www.guardian.co.uk/environment/2011/sep/15/shennongjia-china-water-development