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José Augusto Pádua: o gado bovino “foi uma invasão biológica”

Em entrevista, o historiador comenta sobre a boiada que estourou Brasil adentro e multiplicou as taxas de desmatamento no país

josépadua
Publicado em 10 de maio de 2017 às 13:55 Compartilhar:

Via O Eco
Por Juliana Tinoco e Bernardo Camara (Entrevista), Marcio Isensee e Sá (Vídeo)

- “Foi uma invasão biológica”, afirma o historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Augusto Pádua. “Os europeus introduzem esses animais por aqui, e essa introdução é uma verdadeira arma secreta da colonização”.

“Não escuto mugidos”, escreveu Pero Vaz de Caminha assim que pôs os pés em terra brasileira. Tão presente na história da Europa, o gado bovino não dava nenhum sinal de existência do lado de cá do Atlântico. O que não chegou a ser um problema: passada a estranheza inicial, logo, logo, os europeus abarrotaram caravelas e, em pouco tempo, os ruminantes já pisoteavam nosso solo com a mesma intimidade que o faziam em outras paragens.

Há anos se debruçando sobre a história ambiental brasileira, Pádua conversou com O Eco sobre a tomada do Brasil pela pata do boi. “Quando o gado bovino entrava, as populações indígenas do sertão se afastavam, porque elas sabiam que aquilo era como a linha de frente da ocupação”, conta.

Não demorou para que a boiada estourasse Brasil adentro. Ainda em 1700, enquanto toda a população do sistema colonial brasileiro não contava com mais de 300 mil pessoas, o número de cabeças de gado ultrapassava em muito este número: apenas na Bahia e em Pernambuco, três milhões de animais soltavam seus mugidos à vontade. “Aí eu costumo brincar: quem é que conquistou o território? Foi o gado bovino”, afirma o historiador.

Pádua aponta alguns aspectos que tornaram o terreno propício para o avanço do rebanho. Além de caminhar com as próprias pernas sobre novas áreas e encontrar pastagens com facilidade, a boiada não tinha inimigos naturais por aqui, já que vinha de outras bandas. “A própria onça, demorou um tempo para termos registros históricos de onça atacando gado”, diz Pádua. “Tudo isso fez com que o sucesso do gado bovino fosse muito grande no sentido populacional: houve uma explosão demográfica”.

E a história dá voltas. Cinco séculos depois que o boi foi introduzido no Brasil, a partir da década de 1960, o governo militar começava sua nova obsessão: ocupar a Amazônia, uma área que eles consideravam um “vazio demográfico”. De que jeito? “Colocar o que sempre foi, na história do Brasil, o instrumento de conquista territorial: o gado”, diz Pádua. “Essa sempre foi uma opção barata e pragmática de ocupação da terra”.

Como num déjà vu, a boiada foi chegando e se multiplicando, ao mesmo tempo em que também se multiplicavam as taxas de desmatamento da floresta amazônica. “Usar o gado bovino neste contexto é como voltar ao início da colonização, quando ele era um instrumento simples e efetivo para uma ocupação muito banal da terra. Faz sentido um país como o Brasil, um tesouro ecosférico como esse, usar gado bovino para ocupar?”, pergunta o historiador, para responder em seguida: “É preciso pensar numa perspectiva estratégica do futuro, pensando a sustentabilidade real. A gente precisa de um projeto muito mais inteligente para a floresta amazônica do que transformá-la simplesmente em pasto”.

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